Sobre como as coisas acontecem em outro lugar
Só sei que eu estava lendo. A moça do 304 tentava abafar o som do liquidificador pra não acordar o rapazinho, já que ele não tinha aula. É, acho que foi isso. Eu lia e ele procurava a sessão de esportes no jornal. Eu arrumava o cabelo, porque às vezes fica rebelde. Ele colocava a calça...uma perna de cada vez. Eu sentei no sofá e fiquei batucando na mesa, porque tava cedo pra sair de casa. Só que ele tava atrasado e tinha que pegar o ônibus na esquina.
"Outono é legal porque as folhas caem de propósito pra gente pisar nelas."
"No inverno os garis devem ter menos trabalho do que no outono."
Só sei que eu tava tirando o esmalte da unha. Ele devia estar tentando fugir do sol no ônibus. O brinco sumiu. Ele olha pra moça bonita na calçada. O moço entrega papel na rua, mas ninguém pega. Eu fiquei embaixo da árvore esperando as folhas caírem na minha mão, mas nem tava ventando tanto assim. Ele apertou o botão do elevador com o indicador.
- Até que eu pareço com o seu estilo.
- Eu coloco o cadarço do All Star na horizontal, que nem você.
Acho que foi assim que aconteceu.
Escrito por Marina às 21h30
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Texto V da série: “A Convenção do Gigante”
A Convenção Clandestina
A idéia consiste em dar uma rasteira no Gigante. Sartre diz que nós estamos condenados a sermos livres; e que a nossa existência não depende da gente, mas o que a gente vai fazer dela sim. É que existem regras, moço. Regras que a gente nem nota, mas que a gente pode quebrar, ou não.
Se você quiser dançar tango com a sua sombra na praça, você pode. Se você decidir mudar a ordem das palavras, pode passar a falar “açúcar sem, favor por”. Então, se você acha melhor comer a sobremesa antes do almoço; andar pelado na rua e fazer estrela na calçada ao invés de andar, você pode. O homem não é um ser-em-si, mas um ser-para-si. E se existe a consciência, você pode criar o sentido das coisas do jeito que bem entender.
É por isso que eu proponho uma Convenção Clandestina. Justamente porque eu não fui chamada pra participar da Convenção do Gigante e, pelo menos, o Canela e o Ramiro, também não. Nós, da Convenção Clandestina, apoiamos aqueles que brincam com um pericóptero no ônibus; que colocam as meias nas mãos e quem tem medo de dar cambalhota na piscina. Mas se você prefere usar a meia da cor da blusa; se acha que a concordância verbal deve ser respeitada, bem como a Lei n°367, parágrafo 2, você também pode dar o seu aval, ou não. Viu?
“Somos o que fazemos do que fazem de nós”
Jean-Paul Sartre
Escrito por Marina às 21h26
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Texto IV da série: “A Convenção do Gigante”
A caminho do convencional
Agora a moça usa um casaco e uma blusa de cada vez. Troca o “bandeide” do machucado todo dia. Dorme oito horas por noite (por noite). Lê todos os textos que os professores recomendam. Bebe coca-cola no final de semana. Assiste às aulas de Sociologia e faz anotações. Não bebe café. Não come gordura. Não fala de política, tampouco de filosofia. Lê um livro extracurricular de cada vez. Usa calças da Ellus e blusas da Zara. Leva um guarda-chuva na bolsa. Ajeita a saia quando vai se sentar. Decidiu ser o que sabe que não é. O que a Convenção do Gigante não faz com as pessoas...
Escrito por Marina às 22h18
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Texto III da série: “A Convenção do Gigante”
Inquérito
Por que você não tem estojo?
Por que você tem uma calculadora na mochila se você faz faculdade de História?
Por que você faz misturebas com o seu café?
Por que você escuta Chico Buarque...e Sidney Magal?
Por que você lê Kafka, Kundera, Nietzsche...e tem toda a série do Harry Potter?
Por que você lê Caros Amigos...e as revistinhas da Magali?
Por que você compra roupas em barraquinhas de camelô...e usa um hidratante mais caro do que elas?
Por que você usa duas blusas de uma vez?
Por que você dorme à tarde e estuda de madrugada?
Por que você gastou 9 fotos com uma cabrita?
Por que Popper foi chamado de positivista se ele propôs o método da falsificabilidade?
Por que você esquece do rosto das pessoas, mas lembra das suas mãos?
Por que...
Pois é, a moça foi interrogada pela Convenção do Gigante. Isso que dá criticar “autoridades”.
Escrito por Marina às 20h20
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Texto II da série: “A Convenção do Gigante”
Sobre quando ele não cantou Chico Buarque pra mim

Eu defendo a teoria de que o Gigante (o tal dos primeiros posts) organizou uma convenção que estabeleceu algumas normas para as personagens da sua história. Ele inventou sete criaturas, deu nome e uma cor de cabelo pra cada uma e concedeu-lhes a tarefa de inventar regras para as personagens da sua mente. Na verdade, sempre que o Gigante joga um clímax na sua história, essas sete criaturas são convocadas para uma nova reunião, simplesmente, para rever os conceitos e tomar umas biritas.
E eu não posso andar na rua de cabeça pra baixo como se plantasse bananeira; se fosse um rapaz, não poderia continuar usando as saias rodadas que julgo tão confortáveis; tampouco escrever meu nome com batom na testa para evitar que perguntem “Qual é a sua graça, moça?”. Não sou livre pra nada disso. Não sem ao menos receber um olhar de reprovação, já que estaria violando as regras impostas pela Convenção do Gigante.
É estranho saber que essas pessoas que eu nem conheço esperam alguma coisa de mim. Esperam que eu não use blusa sem manga no inverno; que eu não discuta política com os pombos da Carioca. Esperam que eu seja hipócrita, porque, se vocês não leram as normas estabelecidas pela convenção, está destacado em negrito que “todo personagem do Gigante, independentemente da cor, credo, sexo e preferência de sabor de sorvete deve apresentar uma parcela considerável de hipocrisia”. É realmente estranho saber que eu espero que o trocador de ônibus me dê o troco da passagem, e não que ele cante “João e Maria” pra mim.
Escrito por Marina às 18h29
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[Dispensável]
Sobre a maldita indigestão
E foi assim que aconteceu. Os olhos se cruzaram e eu olhei pra baixo na mesma hora. Por que é que ele tinha que estar naquela rua onde quase ninguém passa? O pior é que a maldita da nostalgia voltou. Justamente por ele ter estudado no mesmo colégio que eu. É que quando a gente passa muito tempo longe, a saudade meio que se esconde. Mas quando a gente reencontra, e pior, do jeito superficial e inusitado que eu reencontrei o moço, a saudade vira nostalgia e embrulha o estômago.
E eu lembrei de tudo: de quando deitava no chão depois do almoço; de quando ia pras passeatas pelo passe-livre; de quando eu deixei de beber coca-cola por ideologia; do último dia na Praia Vermelha...mas que vontade de vomitar! Existe bulimia de nostalgia? Ah, como eu queria ter aquela ampulhetinha da Hermione...
Escrito por Marina às 22h58
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Texto I da série: “É pouca coisa, moço”
Sobre quando ele deitou no travesseiro
Definitivamente, pêlo claro não combina com blusa preta. Mas deitar no travesseiro não tem problema, a minha fronha é branca mesmo. E ele me olhou com cara de “Estou com fome de geléia de ameixa, moça”. Mas gato não come geléia, pensei. Só que ele não parava de me olhar com cara de fome de geléia. “Não adianta, Mousse, gato não come geléia e ponto”. É simples. Assim como dizer que o espaço e o tempo não são grandezas absolutas; que as escadas do IFCS balançam enquanto a gente sobe; que mulher pelada na rua só no Carnaval; que empada de queijo não tem tampa. É indiscutível. Gato não come geléia e ponto...e vírgula...
Quem foi que disse?
Escrito por Marina às 19h27
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Texto VI da série: “Recordar é viver”
O amor
O amor é daqueles que, ao invés de matar a formiga, ficam observando-a levar a folhinha na cabeça. O amor calça chinelos de pano; gosta de sorvete de creme no verão; toma café com leite na mesma xícara há anos; tem olhos verdes escondidos atrás dos óculos, porque, se não sabem, o amor é míope; usa meias de lã nos dias frios; gosta de ouvir música; vai à Igreja mesmo sem prestar muita atenção ao que o padre fala. O amor caminha todo dia de manhã cedo; tem netos; cheiro de sabonete; cabelos brancos; dor nas costas; diz que está apaixonado sempre que pode. O amor gosta de futebol, mas só joga o de botão; não toma refrigerante diet; acorda cedo; dorme depois do almoço; gosta de geléia de goiaba com queijo branco. O amor vai à padaria todo dia; ajuda a arrumar a mesa de domingo; tem muita história pra contar, mesmo que se esqueça de alguns detalhes de vez em quando. Se o amor não tem idade? Claro que tem, completa 83 anos hoje.
(texto de 18 de agosto de 2004)
Escrito por Marina às 11h50
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Mudando de assunto...
Texto V da série: “Recordar é viver”
Olhos que mentem
Chegou, sentou, sorriu. Como se fosse a primeira vez. Os olhos cobertos por uma fenda escura. Mas era a pessoa mais feliz. Esbanjando alegria e música, muita música. Não via, mas sabia. Como magia no precipício íntimo, dançava em companhia da sua imaginação. Desconhecia as nuvens, o mar, as árvores. Mas mergulhava em instintos, sentidos, sons. Ah, se eu pudesse encontrar o horizonte que divisam seus olhos...descobrir de onde vem essa fúria de viver. Mas nem os olhos me fariam encontrar, porque, do mesmo modo que palavras escondem sentimentos, segredos, seu olhar não conta.
Escrito por Marina às 00h00
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Texto IV da série: “Recordar é viver”

Hoje o dia acordou num céu azul.
Mas pra mim esse azul é cinza, e o dia ainda dorme.
Deve ser isso que chamam de saudade.
(e Ramiro se intromete, pra variar)
Ramiro: Talvez não seja saudade. Quem sabe nostalgia, ou simplesmente sentir falta? Poucos entendem esse sentimento. Não é, por exemplo, deixar a namorada em casa e cinco minutos depois ligar dizendo que está com saudades, isso é sentir falta. Saudade é quando você se despede de alguém ou de algo e não sabe quando isso vai voltar, ou se ao menos volta.
Marina: Aí está. As pessoas que foram e que não voltam são como um pedaço arrancado de mim, simplesmente, porque o amor não tem cura.
Ramiro: Então a saudade já é um estar em ti.
Marina: É, deve ser isso então.
Escrito por Marina às 13h48
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Texto III da série: “Recordar é viver”
Piegas, piegas, piegas, piegas...

Digo que é 1; ela, 2. Vôo com a sensação; ela nada em pensamentos. Remendo trapos; ela veste seda. Penso que é verde; ela se diz daltônica. Fecho portas; ela escancara janelas. Eu corro; ela pára. Me perco em labirintos; ela encontra caminhos. Me admiro com o acaso; ela diz que é o destino. Ofereço-lhe a lua; ela diz que prefere o sol. Entrego-lhe rosas; ela me vem com espinhos. Tenho medo do escuro; ela me apaga as luzes. Sou narciso; ela me arranca o espelho. Não pode ser por mal. Ela é altiva; sou piegas. Sou metafórico; ela me vem com ironias. Me debulho em lágrimas de crocodilo; ela ri cinicamente. Ando pela calçada; ela atravessa a rua. E eu viro a esquina e dou de cara com a ilusão. Eu durmo; ela grita. Eu sorrio; ela me olha com desprezo. Entrego-lhe uma pérola; mas ela fica com a concha; diz que prefere o mar. "Quem foi o desgraçado que te inventou?". Me algemam em suas mãos; e ela ri da liberdade. Não tenho medo dela. Tenho medo de nós. É, não pode ser por mal. Quando ela se despe eu até fecho os olhos! O amor tem dessas coisas. Eu digo sim; ouço um não; mas sei que há um talvez entre nós.
Escrito por Marina às 15h09
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Texto II da série: “Recordar é viver” *
*porque o I foi o da Quarta-feira de Cinzas
Eu não gosto de baratas. Não gosto quando aparecem exigindo seu espaço de terra. Não gosto quando me encaram furiosas, insaciáveis. Não vão embora. Não gosto daquelas antenas captando meu desprezo por elas. E ainda acham graça. Como se fossem superiores a mim. A nós. E não são? Não gosto quando invadem minha casa e tiram minha privacidade como se lá fossem bem-vindas. E elas respondem: "Tu é que não és bem-vindo". Não gosto quando se enfiam num cantinho, ameaçando sair enquanto eu estiver dormindo. Só para eu não dormir. Mas é quando as teimosas mais optam por aparecer. Não gosto do risco que correm de virar o nojo. É isso que as tornam superiores. Porque a culpa é minha! E quando são envenenadas? Enganadas. Sem saída, elas correm. Mas de que adianta tentar fugir de si mesmas? Da morte? Elas me encaram com seus olhos demoníacos e jogam a culpa na minha cara. Mas que falta de eufemismo! As baratas são as formigas sem a máscara de arlequim. Tão bela, tão falsa.

MST: uma marcha pela vida.
"Viva la revolución!"
Escrito por Marina às 20h29
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Notas de rodapé num topo de página
Um mosquito me mordeu tanto que nem consegue voar de tão pesado. A minha vontade é dar um tabefe no mocinho e fazer uma transfusão, pegando de volta o sangue que ele tirou de mim. Bem que podia ser assim com a vida.
Dispensável, mas necessário (?)
Tirar uma tarde pra ver quatro filmes seguidos fazem a vida valer a pena. Ainda mais quando se encontra “Romeu e Julieta” de 1968 e “Encantadora de Baleias” por entre as legendas. Como o ócio está me fazendo bem. Mas só de pensar que daqui a uma semana a rotina sem rotina das férias vai mudar completamente, eu já sinto um frio na barriga, como se estivesse no primeiro carrinho da montanha-russa (com os braços pra cima e os olhos abertos).
Ps: Meninos Não Choram, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, O Filho da Noiva...clap clap clap!!!

Escrito por Marina às 10h54
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Genocídio

E foram embora. Sem que eu ao menos pudesse apreciá-las ou julgar algum valor. Pareciam quadros prontos pra exposição. Foram antes da hora, pularam da minha estante. Perdi-as. Levaram com elas pedaços de vida, gente e sentido que eu havia guardado. Todas as seis mil palavras que eu tive o maior cuidado em organizar em parágrafos, jogar hífen e ponto-e-vírgula e, se bobear, até pensar em uma figurinha para ilustrar meu sentimento. As seis mil palavras, nas quais despejei meu egoísmo e meus desejos, sumiram. Se eu ainda pudesse reconstituir seus corpos por completo. Mas as moças eram puro instante, e só.
Quero minhas seis mil palavras de volta. Por isso, deixo o blog em suspenso enquanto saio em busca das mocinhas, nem que eu tenha que ressuscitá-las, mesmo não acreditando em nada disso. É só uma questão de tempo, caixola funcionando e uma pontinha de sentimento de vez em quando. E enquanto houver silêncio, encontro-me neste endereço: http://www.marinovska.nafoto.net porque lá as palavras ainda são crianças e é mais fácil mantê-las por perto.
Ps1: não, ele não resistiu ao traumatismo craniano, e levou consigo minhas cúmplices.
Ps2: definitivamente, os japoneses, chineses, coreanos, enfim, não têm pêlos nos braços, ou pelo menos quase não têm. Se você for um rapaz de olhinhos puxados ou por acaso conheça um que tenha o braço peludo, por favor, me avise.
Escrito por Marina às 18h28
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Quarta feira de cinzas
Quarta feira amanheceu carregada de nuvens que não são de algodão. Acordei tarde, desamparado, perdido nas lembranças do ontem, do Carnaval carioca, da moça da Portela, Mangueira, ou seria Salgueiro? Não passam de cinzas. Às vezes são doces. Outras não. Virei espectador da minha memória. O peso de chumbo nos ombros me afundou no sofá. Mais ou menos como dentro do peito. A taça suja de batom ainda está ali. Acordei com o gosto das cinzas do cigarro que não fumei. E no cinzeiro, um maço vazio. Acordei perdido na imensidão do meu corpo há poucas horas junto ao da moça. A tal moça cheirando a incenso queimado. Cheirando a cinzas. Carnaval é irremediável saudade. Abandono. Ausência. Acordei no início da noite. E eis o que restaram: cinzas mortas de mais um dia perdido num lençol emaranhado de sonhos e sonos pesados. Uma Quarta-feira que não foi. Meu carnaval é só como o poeta.
Escrito por Marina às 12h47
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